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 21/08/2005 a 27/08/2005


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MALU FONTES
 

O povo na tv 

Os telejornais vêm nos dando, todos os dias, a medida exata de como os governantes tratam a população brasileira pobre. Com muita freqüência, temos visto o presidente da República bradando o quanto seu governo fez e fará pelos pobres e desvalidos. No entanto, no mesmo telejornal, no bloco seguinte, vê-se um povo que, de tão humilhado, desrespeitado e abandonado, parece não ser o mesmo que vive no País governado pelo presidente Lula.

Ligamos a TV e vemos fatos e imagens que desmentem qualquer tentativa do governo de nos fazer acreditar que esse País tenha avançado no campo social. Os últimos discursos de palanque do presidente, reafirmando seu compromisso com os mais pobres, não sobrevivem a um confronto mínimo com a realidade da periferia de qualquer cidade.

PALANQUEIRO – Em uma cena, aparece o presidente em uma explícita campanha populista, bradando seus feitos em favor dos menos favorecidos. Na cena seguinte, essa mesma população à qual ele se refere aparece completamente abandonada pelo governo, pela sociedade civil e pela sorte.

A mais perfeita tradução de que o discurso populista e palanqueiro do presidente não tem nenhuma conexão com a realidade social do País são as cenas imorais, para dizer pouco, geradas pela última greve da Previdência Social, encerrada esta semana e pauta dos principais telejornais locais e nacionais há cerca de três meses.

Nada pode desmentir mais as falas do presidente que ouvimos e vemos na TV do que as cenas produzidas nas filas desumanas e humilhantes decorrentes da greve no INSS, que, por atingir majoritariamente gente pobre, não mereceu dos poderes públicos o tratamento e a intervenção que certamente teria ocorrido se fosse algo que alterasse a rotina da classe média ou das tais elites.

Que governo é este que, para rebater o mar de lama que o atinge, saca como argumento a existência de políticas sociais inéditas para a pobreza e ao mesmo permite que pessoas tão necessitadas e vulneráveis sejam levadas a dormir em uma fila para dar entrada a direitos básicos do trabalhador, como pedidos de benefício, aposentadoria e auxílio-doença?

FROUXO – No caso específico de Salvador, para completar o teatro de horrores da tal greve, vimos, com muita freqüência nesse período, autoridades regionais da instituição batendo ponto nas bancadas dos telejornais locais com um discurso insosso, frouxo, cheio de chavões e marcado por um tom burocrático que só poderia produzir o que produz: desinformação para o telespectador.

As explicações e as respostas sobre as circunstâncias da greve e sobre seu impacto na população atingida são um primor para debater a falta crônica de compromisso com a clareza que acomete alguns gestores de instituições públicas. A incapacidade desses entrevistados de elaborar respostas esclarecedoras e informativas para os telespectadores é tamanha que nos leva a ficar curiosíssimos sobre os critérios e caminhos que levam gente tão despreparada a assumir cargos públicos estratégicos.

Seria incompetência pura e simples de quem escolhe essas pessoas para os postos ou seria o efeito colateral previsível dos acordões políticos pré e pós-eleitorais que colocam em negociação uma penca de pessoas e cargos em um processo em que o que menos importa é competência técnica? Para entender como são escolhidas as pessoas para os cargos de confiança do governo, as CPIs têm sido um instrumento didático e tanto.

INTERNET – Como se não bastasse a falta de clareza do comando local do INSS, como telespectadores ainda temos que passar pelo constrangimento de ver alguns repórteres de televisão tendo a coragem de se dirigirem, de microfone e câmara em punho, a senhores e senhoras idosas, depois de uma noite numa fila, em cujo final não haverá ninguém para atendê-los, para perguntar por que eles estão ali, se sabiam que há uma greve e que poderiam dar entrada nos pedidos pela internet.

A pergunta é um sinal claro de como setores da imprensa são incapazes de se aproximar da pobreza (desprovida de tudo e principalmente de tecnologias voltadas para poucos, como a internet), sem o ranço de perguntas elaboradas segundo uma gramática – padrão que parece partir da suposição de que todos vivemos num mesmo mundo. Em episódios como a greve do INSS, os discursos populistas do presidente e a avalanche de absurdos que parece dominar todas as esferas públicas, a cena política e o comportamento da sociedade brasileira, os telejornais se revelam poderosos instrumentos didáticos para a compreensão das nossas práticas.

É um presidente que engana os pobres dizendo que governa para eles e ao mesmo tempo os submete a condições de desrespeito abissais; são deputados, senadores e empresários que, nas CPIs, só se dirigem a qualquer Zé Mané com dinheiro no bolso como “doutor”, revelando o ridículo do nosso provincianismo; é estrela da Seleção Brasileira de Futebol amigo íntimo de traficante que financia e promove a violência e a barbárie.

Mas, como, no final das contas, quem sofre as maiores conseqüências disso tudo são os pobres, quem se importa? Eles, os pobres, que procurem seus direitos. De preferência, na internet. Para finalizar, uma pergunta que não quer calar: por onde anda Dona Marisa Lula da Silva? Depois da explosão da crise, ela nunca mais cumpriu sua função de papagaio de pirata em eventos oficiais.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e
professora das Faculdades
Jorge Amado


Escrito por Malu Fontes às 15h53
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